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Perda de carga & resistência hidráulica

Qualquer fluido que circula numa rede perde energia : é a perda de carga. Compreendê-la é saber dimensionar uma conduta, equilibrar uma rede e escolher o ventilador ou a bomba certos. Regimes de escoamento, perdas regulares e singulares, e o contributo da CFD.

Leitura 10 min Nível Intermédio Sem intenção comercial
Estudo CFD das perdas de carga de uma tremonha
Estudo CFD das perdas de carga — rede aeráulica
01 — Introdução

Porque é que a perda de carga decide toda uma rede

Assim que um fluido (ar, água, fumo) circula numa conduta, num tubo ou numa tubagem, atrita contra as paredes e depara-se com as mudanças de direção. A cada metro percorrido, perde energia : é a perda de carga.

Subestimar esta perda é escolher um ventilador ou uma bomba demasiado fracos e nunca atingir o caudal pretendido. Sobrestimá-la é sobredimensionar a instalação e desperdiçar energia continuamente. Calculá-la bem é dimensionar com justeza.

02 — Definição

O que é uma perda de carga ?

Definição

A perda de carga (notada ΔP) é a queda de pressão sofrida por um fluido em movimento, devida à dissipação viscosa da sua energia por atrito e turbulência. Exprime-se em pascals (Pa) e cresce, no essencial, com o quadrado da velocidade do escoamento.

Distinguem-se duas famílias de perdas, que se somam ao longo de toda a rede :

Perdas regulares (lineares)

  • Devidas ao atrito ao longo das paredes de uma conduta reta.
  • Proporcionais ao comprimento e inversamente ao diâmetro.

Perdas singulares (locais)

  • Devidas aos acidentes : cotovelos, tês, válvulas, alargamentos, grelhas.
  • Concentradas num ponto, mas muitas vezes dominantes.
03 — Regime

O regime de escoamento : laminar ou turbulento ?

Antes de qualquer cálculo, é preciso conhecer a natureza do escoamento. O número de Reynolds compara as forças de inércia com as forças viscosas e determina se o fluido se escoa em filetes paralelos (laminar) ou de forma caótica (turbulento).

Re = (ρ · V · D) / μ
ρ massa volúmica (kg/m³) · V velocidade média (m/s) · D diâmetro hidráulico (m) · μ viscosidade dinâmica (Pa·s). Em conduta : Re < 2000 laminar, Re > 4000 turbulento.

Na quase totalidade das redes de ar e de água do edifício e da indústria, o escoamento é turbulento : é este regime que governa os métodos de cálculo abaixo.

04 — Perdas regulares

As perdas regulares : a fórmula de Darcy-Weisbach

Sobre um comprimento reto de conduta, a perda de carga calcula-se pela relação universal de Darcy-Weisbach :

ΔP = λ · (L / D) · (ρ · V² / 2)
λ coeficiente de atrito (adimensional) · L comprimento (m) · D diâmetro (m) · ρV²/2 pressão dinâmica (Pa).

O coeficiente λ depende do número de Reynolds e da rugosidade relativa da parede. Lê-se classicamente no diagrama de Moody ou calcula-se pela fórmula de Colebrook. A lição prática : como o ΔP varia em , duplicar a velocidade multiplica a perda por quatro, daí o interesse de condutas generosas.

05 — Perdas singulares

As perdas singulares : o coeficiente K

Cada acidente da rede (cotovelo, tê, redução, registo, grelha) provoca uma perda local, modelada por um coeficiente de perda singular K :

ΔPs = K · (ρ · V² / 2)
K coeficiente próprio do acidente (ábacos de fabricantes / normas). Um cotovelo vivo tem um K bem superior ao de um cotovelo de grande raio.

Numa rede compacta, estas perdas singulares dominam frequentemente as perdas lineares. Reduzir um cotovelo vivo, fluidificar uma junção ou alargar uma grelha pode fazer cair a perda global muito mais eficazmente do que aumentar as condutas retas.

Sabia que ?

Os ábacos param onde a geometria se torna real

Os coeficientes K tabelados valem para acidentes isolados e ideais. Assim que dois cotovelos se encadeiam, que uma junção é assimétrica ou que uma tremonha está obstruída, a interação entre singularidades sai dos ábacos : só a CFD dá então um valor fiável.

06 — Rede

Resistência hidráulica & equilíbrio da rede

À escala de uma rede completa, fala-se de resistência hidráulica : a oposição global que a instalação oferece à passagem do fluido. É ela que, cruzada com a curva do ventilador ou da bomba, fixa o ponto de funcionamento real (caudal e pressão obtidos).

Quando vários ramais partilham um mesmo caudal, o desafio torna-se o equilíbrio : repartir corretamente os caudais entre ramais para que nenhuma zona seja sobrealimentada em detrimento de outra. Uma rede mal equilibrada significa locais mal ventilados e órgãos de regulação que « consomem » energia em pura perda.

Cartografia CFD das perdas de carga numa tremonha
A CFD cartografa as zonas de dissipação e orienta as modificações de traçado para reduzir a resistência global.
07 — CFD

Quando a simulação CFD assume o lugar dos ábacos

As fórmulas e ábacos são suficientes para uma rede regular. Mas assim que a geometria se torna complexa ou condicionada (tremonhas obstruídas, plenums, tomadas de ar, junções múltiplas, permutadores), a simulação CFD torna-se a ferramenta de referência.

Calcula a perda de carga real da geometria exata, visualiza as zonas de recirculação e de descolamento que dissipam a energia, e permite testar variantes de traçado antes da fabricação. Dimensiona-se assim com justeza, sem sobredimensionar « por segurança ».

Estudo de caso : perdas de carga — rede do CNIT
Uma rede para dimensionar ou desobstruir ?

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